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A lenda das mariposas

 

Sininha era uma mariposa muito corajosa, aliás, era a mais corajosa de todas as mariposas que viviam na ilha.

Elas pensavam que só existia aquela ilha na Terra, ou melhor, no universo.

Era uma ilha pequena, com algumas árvores sempre batidas pelo vento e castigadas pela maresia. Ali não viviam outros bichos, nem pessoas... só as mariposas.

Mas num dia de sol muito quente, do céu sem nuvens surgiu uma pequena gaivota que pousou numa das árvores da ilha. As mariposas fiaram com medo. Elas nunca tinham visto outros bichos e não sabiam o que era aquele ser estranho, com asas como as delas, mas com penas e bico, e muito maior do que elas.

Mas a gaivota era mansinha e, além disso estava assustada porque se perdera das outras gaivotas que estavam viajando para um país muito distante. Foi por isso que ela pousou na ilha das mariposas.

Ninguém tinha coragem de chegar mais perto. Todas ficavam de longe, espreitando a gaivota, com medo de se aproximarem... Não, todas não! Sininha, que era muito corajosa foi chegando perto, mais perto, e perguntou:

- Quem é você? Você não é uma mariposa.

- Eu sou uma gaivota, respondeu o pássaro, olhando curiosamente para Sininha. – Sou um pássaro que gosta muito do mar... Mas eu me perdi das minhas companheiras e já estava cansada e muito assustada... Foi então que eu vi esta ilha e resolvi descansar um pouco, antes de seguir viagem.

Sininha estava maravilhada. Nunca tinha visto outros bichos, que não mariposas e, como era muito curiosa não ia perder aquela oportunidade. Olhando curiosamente para a gaivota, perguntou:

- De onde você vem? Do mar?

- Não, respondeu a gaivota.– Eu venho do continente.

- Do continente? O que é isso?

Fazendo uma expressão de quem sabe tudo, a gaivota respondeu:

- Ah, é uma terra muito grande...

- Maior que esta ilha? - Indagou Sininha, com os olhos arregalados.

- Ora, esta ilha é um grãozinho de areia em comparação ao continente. Lá, tem muitos outros bichos e até pessoas.

- Pessoas? O que são pessoas?

A gaivota pensou um pouco e revirando os olhos, já meio irritada, respondeu:

- Ora, você é muito perguntadeira. Como é que eu vou explicar alguma coisa que você nunca viu e não sabe como é? Por que não vai até lá e vê você mesma?

Sininha ficou pensativa alguns instantes. Seus olhos começavam a brilhar num brilho estranho, e murmurou:

- Ir até lá...

Virando-se para a gaivota, perguntou:

- Como é que eu faço para chegar lá?

- É só voar na direção do pôr-do-sol.

E enquanto Sininha matutava, a gaivota levantou vôo, gritando antes de partir:

- Não seja boba. Vá conhecer o continente. Adeus, e boa viagem.

Naquela noite Sininha não conseguiu dormir e, pela manhã, logo cedo, procurou a rainha das mariposas. Ao encontrá-la, foi logo dizendo:

- Sabe, Rainha, aquela gaivota que pousou aqui ontem me falou numas terras imensas, que ela chama de continente. Ela disse que lá tem muitos bichos e até mesmo pessoas... E eu quero que a senhora me autorize a ir até lá. Quero fazer essa viagem.

- Você deve estar delirando... Nenhuma mariposa jamais saiu daqui. Não existem outras terras... Só tem mar.

- Existem sim, Rainha, insistiu Sininha. – Tenho certeza. A gaivota não veio do mar, ela veio de lá. Por favor, deixa eu ir. Eu prometo que volto para contar a vocês como é lá.

- Está bem, disse finalmente a Rainha. – Pode ir, mas depois não me diga que não avisei. Nada existe além da nossa ilha... mas, quando ficar cansada de voar sobre o mar, volte, está bem?

- Eu volto, sim, respondeu Sininha, muito feliz. – Mas só depois de descobrir o continente.

O sol já ia alto e a prudência dizia que Sininha só iniciasse a viagem no dia seguinte, ao amanhecer. Mas a ansiedade era tanta que venceu a prudência e a pequena mariposa levantou vôo, seguindo em direção ao poente. Subiu, subiu, até encontrar uma corrente de ar favorável e aí, era só permanecer com as asas abertas, como se fosse um planador e deixar o vento levá-la.

Ah, como era lindo! O sol coloria o mar de reflexos prateados e dourados. Aqui e ali o vento levantava uma onda fazendo espuma branquinha.

Sininha nunca se sentira tão feliz. Estava livre... voando entre o céu e o mar, levada pelos ventos marinhos.

Mas o tempo passava e nada de terra... Só o mar imenso a se confundir com o horizonte distante.

A tarde voou mais rápida que o vento, trazendo a noite, e nada de terra.

Sininha estava muito preocupada. Como iria guiar-se sem o sol? Não sabia ler nos caminhos das estrelas e nem mesmo poderia descer para repousar um pouco, já que lá embaixo só havia mar.

- Que vou fazer agora? Perguntava a si mesma. – Será que a Rainha estava com a razão?

Mas logo lhe voltava aquela certeza de que havia um continente... lá, mais adiante, em algum lugar.

O tempo passava, porém, e nada de terra. Olhava para baixo e só via os reflexos das estrelas nas ondas do mar. O vento cantava em seus ouvidos, mexendo com seus pensamentos e a pequena mariposa começou a pensar em quem teria feito o vento, o mar, as estrelas... Lembrou-se de velhas lições que aprendera na infância sobre o Criador de todas as coisas, que a Rainha chamava de Deus. E quando o medo já estava se instalando em sua alma, Sininha olhou as estrelas, como a pedir socorro, e implorou:

- Deus, eu estou com medo... com muito medo. Se tu estás nas estrelas; se fizeste o vento e o mar, acho que também consegues me escutar... e me ajudar. Faz alguma coisa por mim, ô Deus... eu sei que não devia ter teimado com a Rainha porque ela sabe mais do que eu, mas já que estou aqui, sozinha nesta imensidão, morrendo de medo, eu não tenho mais ninguém a quem recorrer... Me ajuda, por favor.

Sininha fez aquela prece com tanto sentimento que seu pedido foi ouvido lá no alto e Deus enviou então seu pensamento em direção à pequena mariposa, que começou a se acalmar.

- Ah, que bom! Exclamou Sininha em voz alta. Estou mais calma, mais leve... O medo foi embora. Será que foi Deus que me ouviu?

Mas logo a preocupação voltou, quando lembrou-se de que estava sem rumo. Sem o sol para guiá-la, não tinha idéia da direção em que estava voando. Também o medo começava a infiltrar-se de novo em sua alma. Fechou os olhos para pensar mais intensamente em Deus e orou:

- Meu Deus, me ajuda mais uma vez... Não sei em que rumo estou indo... Estou completamente perdida...

A prece da pequena mariposa era tão sincera e tão aflita que Deus enviou seu pensamento ao reino dos espíritos, ao posto de socorro que atendia às mariposas e, duas samaritanas foram designadas a socorrê-la. E elas então, se dirigiram rapidamente até o local em que a pequena mariposa continuava voando e com o medo crescendo cada vez mais em seu coração.

As samaritanas cercaram Sininha e a mais velha disse.

- Muito bem, aqui estamos para socorrer esta companheira.

A outra, mais nova, perguntou:

- Como é que nós vamos poder ajudá-la? Ela não nos vê nem nos escuta, porque somos espíritos.

- Até parece que você não fez o treinamento para samaritana – respondeu a mais velha.

- Ah, fiz sim. Fiz um treinamento de seis meses. Mas eles nunca falaram em situações como esta. Francamente, não vejo como poderemos ajudar nossa companheira.

- Fique quieta um instante, estou pensando. Estou pedindo inspiração... Ah, já sei. Vamos fazer um pé-de-vento.

- Pé-de-vento? Para quê. Não sei em quê um pé-de-vento poderá ajudar...

- Pois então deixe de pensar. Você só sabe pensar e falar de forma negativa. Não sabe que o pensamento é a nossa grande força? Se você fica aí pensando que nós não vamos poder ajudar, acabamos não podendo mesmo... Já esqueceu a lição numero um da nossa escola?

- Lição número um?

- Ah, estou vendo que esqueceu mesmo. Pois a lição número um é ter sempre fé. Ter sempre confiança em Deus, seja qual for a situação.

A samaritana mais nova baixou a cabeça envergonhada e murmurou:

- Tem razão... me desculpa. Prometo que a partir de agora vou sempre pensar com otimismo e confiança.

- Ótimo. Pois então, mãos à obra.

As duas começaram a trabalhar e, logo mais, um forte pé-de-vento fez Sininha rodopiar. As samaritanas conduziram seus rodopios de tal maneira que, ao parar, ficou de frente para uma luz que piscava ao longe, no horizonte.

- Meu Deus, eu vi uma luz –exclamou Sininha. - Tenho certeza. Ela acendeu e apagou...

A pequena mariposa fixou o olhar no ponto em que vira a luz e, eis que de novo se acendeu e apagou... acendeu e apagou...

- É uma luz piscando... Ela está piscando para mim... é para me mostrar o caminho...

Com as energias renovadas pela certeza de que Deus enviara aquela luz para indicar-lhe o caminho, Sininha agradeceu ao Criador e pôs-se a voar com redobrado vigor e, com mais uma hora de viagem chegava ao farol cuja luz via acendendo e apagando, como um sinal de esperança em meio à noite escura.

Chegando mais perto começou a ver uma porção de coisas que nunca vira. Havia muitas construções... Seriam casas? Havia árvores e flores, muitas flores. Havia bichos também. Sininha olhava maravilhada para tudo, principalmente para os bichos. Aproximou-se de um que parecia adormecido. Mais tarde soube que era um gato. Mas o bichano, malvado e traiçoeiro, só estava fingindo que dormia e, quando a pequena mariposa estava bem pertinho, ah, que criatura perversa! De um pulo saltou sobre ela e, não fosse uma ajuda providencial das samaritanas que atrapalharam o pulo do gato... ele teria conseguido abocanhá-la.

Aprendida a primeira lição de sobrevivência, Sininha achou melhor dormir aquela noite numa árvore.

E assim, de surpresa em surpresa, a pequena mariposa foi conhecendo as coisas boas e más que havia no continente. Aprendeu que não podia confiar em todo mundo, porque havia muita maldade. Bichos que gostavam de comer outros bichinhos como borboletas, gafanhotos e, é claro, mariposas. Era preciso estar sempre atenta. Mas havia também muitos bichos amigos nos quais ela sentia que podia confiar.

Duas semanas mais tarde vamos encontrar a pequena viajante bastante mudada. Estava feliz e muito impressionada com tudo que vira, mas também muito saudosa das suas companheiras. No continente não havia mariposas... Não dava para viver assim, tão isolada.

Foi então que lembrou-se de ter prometido à Rainha que voltaria. Mas seu coração ficava apertado ao pensar que iria viver o resto da sua vida naquela ilha depois de ter conhecido as maravilhas do continente. Mas, como era cumpridora das suas promessas, no dia seguinte partiu bem cedo, ainda de madrugada, para chegar à ilha antes do anoitecer. As duas samaritanas foram encarregadas novamente de ajudá-la, dando-lhe a intuição do rumo que deveria seguir.

O sol já resvalava em direção ao horizonte, dando um tom rosado às poucas nuvens que vagavam preguiçosamente no céu, quando finalmente Sininha chegou à ilha. Mas uma triste surpresa a esperava. As mariposas estavam todas doentes e algumas até já haviam morrido. A gaivota trouxera em suas patas um vírus terrível que não fazia mal às gaivotas, mas matava as mariposas.

- E agora? – Perguntava a si mesma, entristecida. – Vou ficar de novo sozinha... sem ninguém? As minhas companheiras estão morrendo e eu nada posso fazer.

Sentou-se sobre uma pedra e começou a pensar. Lembrou-se da ajuda que tivera em sua viagem de ida e, esperançosa, voltou a pedir a Deus, desta vez para ajudar suas companheiras.

As samaritanas que ainda estavam por perto sentaram-se a seu lado e começaram a falar-lhe. Sininha não podia ouvi-las, mas percebeu pela intuição o que estavam querendo lhe dizer. Feliz por acreditar que encontrara uma solução, foi correndo à presença da Rainha.

- Querida Rainha – foi logo dizendo. – acho que sei o que está acontecendo. Eu também cheguei perto daquela gaivota, mas não peguei a doença. Alguma coisa me livrou desse vírus e eu acho que foram as correntes de ar, por onde voei... Ou talvez os raios do sol lá nas alturas... Mas seja o que for, acho que precisamos todas voar até o continente.

A Rainha acatou as ponderações de Sininha e, no dia seguinte, ainda de madrugada, todas as mariposas levantavam vôo, abandonando para sempre aquela ilha. As mais doentes eram amparadas pelas que estavam em melhores condições e, assim, ao anoitecer, todas chegavam sãs e salvas ao destino. Elas foram novamente guiadas pelas samaritanas, sem que o percebessem.

Alguns dias mais tarde, já restabelecidas, resolveram espalhar-se pelo continente, muito felizes e muito gratas à pequena companheira, porque foi a sua coragem que as salvou. Ao se despedirem, Sininha tomou a palavra para dizer:

- Quero que saibam uma coisa muito importante. Eu aprendi a ter confiança no Criador, que nós chamamos de Deus, porque foi Ele quem me ajudou em minha primeira viagem. Eu estava perdida, em plena noite, entre o céu e o mar, e estava com muito medo. Mas pedi ajuda a Ele o pouco depois um pé-de-vento me fez rodar e quando parei vi a luz do farol piscando... Aquela luz bendita é que foi a minha salvação e também a de vocês, porque se eu não tivesse conseguido me salvar... todas vocês teriam morrido.

Impressionada, a Rainha limpou a garganta com um pigarro e todas voltaram suas atenções para ela, que falou, emocionada:

- Muito bem, Sininha. Eu, a Rainha, ordeno a todas as mariposas que nunca se esqueçam de que devemos nossas vidas à luz. Bendita seja a luz para todo o sempre... Bendita seja a coragem de Sininha, e a sua fé que nos salvou a todas.

 

“Entende agora, por que as mariposas gostam tanto da luz?”

 

Saara Nousiainen