Artigos

 

TER ÉTICA É AMAR

 

Emerson aguiar

emerson@etical.org.br

 


Quem tem amor em seu coração por seu semelhante, tem ética.

Não adianta buscar um conceito cerebral para a ética, pois ela só é possível quando não pensamos apenas em nós mesmos.

A senda da Ética é repleta de desafios. Não basta ter boas intenções, é preciso boa vontade e obstinação para segui-la. Faz-se mister estar imbuído do sentimento certo ou todo esforço será vão.

Pode-se falar muito sobre Ética. Mas uma Ética só de palavras nada significa.

A Ética é uma afirmação das ações e não das palavras. Ela é uma possibilidade humana: a de reconhecer o outro como alguém importante e de, ao mesmo tempo, reconhecer-se nele.

Reconhecer o outro como importante quer dizer imputar-lhe valor. Isso se dá quando percebemos que as outras pessoas, assim como nós mesmos, têm medos, angústias, necessidades, aspirações e esperanças; quando identificamos, em outras palavras, sentimentos semelhantes aos nossos no outro. Nesse instante, descobrimos o outro como semelhante. Tomamos consciência de que ele está próximo de nós, pois tem limitações e potencialidades parecidas com as nossas.

Quando vemos isso com clareza, passamos a nos reconhecer no outro.

Contudo, ter ética é muito mais do que se dizer ético. Para sintetizar o que significa possuir um comportamento rigorosamente ético é preciso recorrer a uma pequena frase: ter ética é amar.

Ninguém se tornará ético por seguir um código, um manual ou uma receita. Pois estes até podem ser reflexos da ética, mas nunca a causa, pois a causa é o amor. O amor desinteressado, puro, penitente, generoso, leal, bondoso. Simplesmente o amor.

Nenhum treinamento pode conferir o título de “ético” ao indivíduo. Nem isso e nem mil leituras, ou diplomas, ou cursos, ou reconhecimentos de qualquer tipo.

Quem não entende a ética como amor, jamais entenderá a ética. Podemos entendê-la como a “ciência do bem agir”. Desde que entendamos e sintamos o que é isso. “Bem agir” significa fazer o que se deseja. Mas para que se possa fazer o que se deseja, é preciso saber o que efetivamente se deseja.

Para que os nossos desejos sejam justos e corretos precisamos amar.

Porém, antes de usarmos o “amor” como justificativa para atitudes desastradas é necessário conhecermos a sua natureza. E isso requer muita disciplina ou, como diria Vinícius de Morais, muita “seriedade”.

O amor não é um jogo. Nós podemos até senti-lo como algo agradável e ameno, como uma brincadeira, mas é ele que nos escolhe e nos manipula e não o contrário. Da nossa parte é preciso muita reverência, dedicação e honestidade com o amor. O amor é que dita as regras. Sendo ele suave, precisamos aprender a sua suavidade; se ele é puro, é fundamental que também o sejamos; sendo fiel, sem fidelidade não nos aproximaremos dele; sendo perene e tranqüilo, tranqüilidade e paciência é o que ele nos pede. Sem isso o amor não é possível.

De acordo com a máxima latina “agere sequitur esse”, nossos atos só serão amorosos se manifestarmos neles a essência do que somos. E essa essência é o amor. Sem ele, é impossível agir corretamente. Sem ação correta não há boa ação. E sem boas ações não existe Ética. Santo Agostinho sintetizou isso com genialidade: “Ama e faze o que quiseres”. Portanto, antes de fazer qualquer coisa é preciso amar. Tolstoi já dizia: “Não faça nada que contrarie o amor”.

A mais alta sabedoria das mais elevadas tradições religiosas aponta para um fato: ninguém que ame verdadeiramente é capaz de ferir o seu próximo. E o bom senso também nos comunica o mesmo. Quem descobriu o amor se torna incapaz da agressão ao seu semelhante. E quem não usa de violência e nem quer prejudicar os outros, mas, ao contrário, quer ajudá-los no que for possível, está, indiscutivelmente, credenciado como indivíduo ético. Para alguém assim, cada instante é o momento certo de dar um testemunho de amor...

André Luís nos diz que a “virtude não é voz que fala, é luz que irradia”. A ética é a síntese de todas as virtudes aplicadas à vida prática. Só tem sentido, pois, quando vivenciada, quando “irradiada”.

A ética corresponde à capacidade humana de agir de conformidade com valores superiores. Ela é o contraste que revela, através das ações, o melhor do ser humano. Uma teorização excessiva sobre a ética pode, todavia, desvirtuar completamente o seu sentido maior: ser feliz fazendo os outros felizes, minimizando o sofrimento alheio e ajudando as pessoas a superarem as suas dificuldades transitórias.

Parafraseando André Gide, podemos dizer que quando certos “especialistas” concluem a explicação do que seja a “ética”, não é mais possível identificar qual foi mesmo a pergunta, de tão estranha, confusa e rebuscada que é a resposta. Mas nada disso é necessário, porque o real sentido da ética está dentro de nós mesmos. Ela é a inclinação que temos para o bem. Quando deixamos que se manifeste, quando permitimos que se atualize, que abra as suas asas e voe em liberdade, realizamos o propósito supremo da nossa própria existência: a felicidade sustentável, alicerçada na paz interior, na consciência de nossas próprias responsabilidades e no amor ao outro. Abandonamos, então, a velha idéia de “sucesso” baseada em nossa própria imagem, nome, prestígio, reputação, interesses mesquinhos e outras muletas sociais e psicológicas.

A ética é, tão somente, um epifenômeno. É a conseqüência da paz e do amor que entregamos a todos que encontramos. O amor é luz, sendo a ética luminosa, a sua fonte é o amor. Se manifestássemos todo o amor potencial que há em nós, seríamos deuses. Se observarmos bem, o que queremos dizer quando cumprimentamos os outros é que nos importamos com eles, com a sua felicidade. Quando os tocamos, gostaríamos de abraçá-los, quando os abraçamos, temos vontade de beijá-los, quando os beijamos, nosso desejo, na verdade, é o de levá-los em nossos braços pelas veredas da vida, como Deus faz conosco, sem que, muitas vezes, nos apercebamos disso. Queremos expressar que os amamos. Só não o fazemos melhor porque temos medo de assumir este sentimento que nos constitui intimamente. Mas como o amor é a nossa mais profunda natureza, não adianta fugir dele. Só seremos plenamente felizes quando o expressarmos totalmente. Como? Sendo úteis, compreendendo, abençoando e perdoando radicalmente todos os nossos semelhantes e amando todas as criaturas de Deus. Cada um de nós deveria emanar só amor para o mundo. Se não fazemos isso, só pode ser porque estamos doentes. Porém, quem disse que a ignorância não tem cura?

Haverá quem diga que a humanidade nunca foi assim. Que somos o produto do que nossos antepassados foram, que repetiremos sempre os mesmos erros de antes, que não andamos para frente. Só será assim se acreditarmos nessas tolices! Houve sim muitos seres humanos que foram expressões vivas do amor. Gente conhecida e gente anônima. Porque não podemos ser assim também? Claro que podemos! As desilusões só atingem as ilusões, não os sonhos. Podemos sim viver com a consciência tranqüila, sem os deslumbramentos e as alucinações que se confundem com a felicidade, ter sonhos de paz e de amor e trabalhar pela sua realização. Se o nosso coração está no lugar certo, ninguém poderá parti-lo. Podemos, desde agora, levar tranqüilidade, gentileza e carinho a todos os outros caminhantes da jornada da vida. Podemos sim fazer a diferença. Se a maioria não agiu assim antes, se não age assim ainda, não tem importância alguma. Seremos, nós mesmos, o ponto de mutação! Se ninguém liga para como agimos, tampouco interessa! Podemos olhar para uma flor ou para uma nuvem, que não querem ser nada mais do que eles mesmos. Não estão buscando resultado algum, assim como nós, quando temos amor. Somente devemos cultivar o amor e o respeito em nosso coração, sem nos preocupar com mais nada. O amor é o maior patrimônio divino que há dentro de nós, ninguém pode acabar com ele. É o nosso traço mais perene. Quando sentimos, profundamente, que há oceanos de amor dentro de nós e, sobre eles, arco-íris de amor, não temos mais receio algum e, assim, a ética torna-se uma realidade viva em nós, e, também, nos outros, através de nós.

Nada disso é ingenuidade. Tolice é pensar que a vaidade e a astúcia podem conquistar alguma coisa que preste. Que proveito há em condenar o coração à paralisia? O que pode acrescentar a alguém desdenhar da virtude? Pautar a própria conduta por sentimentos elevados é sinal de prudência e não de pieguismo, como poderiam imaginam algumas inteligências doentes, pervertidas no cuidado de seus próprios interesses e envenenadas pelo excessivo amor-próprio. Perdidas nos labirintos de si mesmas, nem sequer suspeitam que é o amor que irriga o coração, fazendo com que a linda flor da ética desabroche no multicolorido jardim da nossa alma.

Aquele que ama, logo sente os efeitos do amor. Quem age com ética tem, em seu próprio modo de agir, a sua maior recompensa. Na linha do que disse também André Luis: “Quem acende uma luz é o primeiro a se iluminar”.

Ter ética é amar. Ponto.