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Suicídio, suprema rebeldia à vontade de Deus

 

 Jorge Hessen

jorgehessen@gmail.com  


 

O suicídio é um ato exclusivamente humano e está presente em todas as culturas. Suas matrizes causais são numerosas e complexas. Pesquisas assinalam que o comportamento suicida acontece em famílias, sugerindo que fatores biológicos e genéticos também desempenham papel de risco.

Os determinantes do suicídio patológico estão nas perturbações mentais, depressões graves, melancolias, desequilíbrios emocionais, delírios crônicos. Algumas pessoas nascem com certas desordens psiquiátricas tal como a esquizofrenia e o alcoolismo, o que aumenta o risco de suicídio. Há os processos depressivos onde existem perdas de energia vital no organismo, num processo de desvitalização, ocorrendo interferência em todo mecanismo imunológico do ser.

Sob o ponto de vista sociológico o suicídio é um ato que se produz no marco de situações anômicas(*) em que os indivíduos se vêem forçados a tirar a própria vida para evitar conflitos ou tensões inter-humanas, para eles insuportáveis. Émile Durkheim registra que a causa do suicídio quase sempre é de matriz social ou seja, o ser individual é abatido pelo ser social. Absorvido pelos valores (sem valor) como o consumismo, a busca do prazer imediato, a competitividade, a necessidade de não perder, de ser o melhor, de não falhar, o homem se afasta de si e de sua natureza. Sobrevive de “aparências” para representar um "papel social" como protagonista do meio. E, nesta vivência neurotizante, ele deixa de desenvolver suas potencialidades, não se abre, nem expõe suas emoções e se esmaga na intimidade.

Há estudos que indicam que de 30 a 40% da população mundial irão ter depressão, pelo menos, uma vez ao longo da vida, mormente na juventude. Até porque o jovem sofre muito por não conseguir entender, nem se sentir entendido. Muitas vezes a sociedade se revela para ele, como referência  de amarguras e instabilidade. Deste modo, age e sente de forma volúvel e nem sabe porque. E se sente vazio em si e muito só. Destarte, passa facilmente do riso às lagrimas, da alegria à tristeza. E da tristeza, muitas vezes à depressão. Que se instala, devoradora, silenciosa e perversa. E o emudece, o asfixia, sobrevindo a irritabilidade constante, o  cansaço, o desânimo; as idéias de inutilidade e por fim o suicídio. Geralmente inconsciente de que “de todos os desvios da vida humana o suicídio é, talvez, o maior deles pela sua característica de falso heroísmo, de negação absoluta da lei do amor e de suprema rebeldia à vontade de Deus, cuja justiça nunca se fez sentir, junto dos homens, sem a luz da misericórdia”.[i] O autocídio significa o ponto alto da insatisfação, representa uma solução desesperada para fugir da depressão.  O "self" de quem se suicida sente-se naquele momento fragilizado a ponto de ser dominado pelo instinto da morte.

Até 70% das pessoas que cometem suicídio tinham sofrido de um distúrbio bipolar (maníaco-depressivo) ou um distúrbio do humor ou de exaltação/euforia (mania) desaguando numa depressão severa no período que antecedeu suas mortes.  O suicídio pode ocorrer tanto na fase depressiva como na fase de mania, sempre conseqüente do estado mental. A Doutrina Espírita esclarece que “o pensamento delituoso é assim como um fruto apodrecido que colocamos na casa de nossa mente.  A irritação, a crítica, o ciúme, a queixa exagerada, qualquer dessas manifestações, aparentemente sem importância, pode ser o início de lamentável perturbação, suscitando, por vezes, processos obsessivos nos quais a criatura cai na delinqüência ou na agressão contra si mesma.”[1]

Um indivíduo quando perde a capacidade de se amar, quando a auto-estima está debilitada, passa a ter dificuldade de manter a saúde física, psíquica e somática. André Luiz cita nas suas obras que “os estados da mente são projetados sobre o corpo através dos bióforos que são unidades de força psicossomáticas, que se localizam nas mitocôndrias. A mente transmite seus estados felizes ou infelizes a todas as células do nosso organismo, através dos bióforos. Ela funciona ora como um sol irradiando calor e luz, equilibrando e harmonizando todas as células do nosso organismo, e ora como tempestades, gerando raios e faíscas destruidoras que desequilibram o ser, . principalmente em atingindo as células nervosas.

Á rigor, não existe pessoa "fraca" a ponto de não suportar um problema, que ele julga, de certa forma, demasiado para si. O que de fato ocorre é que esta criatura não tem força de mobilizar a sua vontade própria para enfrentar os desafios. Joanna de Angelis assevera que o “suicídio é o ato sumamente covarde de quem opta por fugir, despertando em realidade mais vigorosa, sem outra alternativa de escapar”.[2]

O mais grave é que o suicida acarreta danos ao seu perispírito. Quando voltar a reencarnar, além de enfrentar os velhos problemas ainda não solucionados, terá acrescido a necessidade de reajustar a sua lesão perispiritual. Portanto, adiar dívida significa reencontrá-la mais tarde com juros somados com cobrança sem moratória. Na questão 920 do Livro Espíritos registra que a vida na Terra foi dada como prova e expiação e depende do próprio homem lutar com unhas e dentes para ser feliz o quanto puder amenizando as suas dores.[3]

Além de sofrer no mundo espiritual as dolorosas conseqüências de seu gesto o suicida ainda renascerá com todas as seqüelas físicas daí resultantes, e terá que arrostar novamente a mesma situação-provacional que a sua pouca fé e distanciamento de Deus não lhe permitiu o êxito existencial.

Certamente não cometeriam o autocídio se os que querem se matar soubessem que após o ato “o que [ocorrerá] é o choro convulso e inconsolável dos condenados que nunca se harmonizam! O que [ocorrerá] é a raiva envenenada daquele que já não pode chorar, porque ficou exausto sob o excesso das lágrimas! O que [ocorrerá] é o desaponto, a surpresa aterradora daquele que se sente vivo a despeito de se haver arrojado na morte!O que [ocorrerá] é a consciência conflagrada, a alma ofendida pela imprudência das ações cometidas, a mente revolucionada, as faculdades espirituais envolvidas nas trevas oriundas de si mesma! É o inferno, na mais hedionda e dramática exposição (...)”·[4]·.

Na Terra é preciso ter tranqüilidade para viver, até porque não há tormentos e problemas que durem para sempre. Recordemos que Jesus nos assegurou que " Pai não dá fardos mais pesados que nossos ombros" e "aquele que perseverar até o fim, será salvo"[5].

Ante o impositivo da Lei da fraternidade devemos orar pelos que se mataram, compadecendo-nos de suas dores, sem condená-los. Até porque "Todos os suicidas, sem exceção, lamentam o erro praticado e são acordes na informação de que só a prece alivia os sofrimentos em que se encontram e que lhes pareciam eternos." [6]

Tenhamos pois piedade dos que fugiram da vida pelas portas falsas do suicídio, pois eles carecem do amor, da graça e da misericórdia de Deus reveladas pela cruz, morte e amor de Jesus Cristo.

 Jorge Hessen

(*) Sociologicamente corresponde a uma situação em que há divergência ou conflito entre normas sociais, tornando-se difícil para o indivíduo respeitá-las igualmente E-Mail: jorgehessen@gmail.com  

Site: http://meuwebsite.com.br/jorgehessen

  

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


[1] Mensagem extraída do livro “PACIÊNCIA”, de Emmanuel; psicografado por Francisco Cândido Xavier

[2] Franco, Divaldo, Momentos de Iluminação, Ditado pelo Espírito Joanna de Angelis, RJ: ed. FEB.

[3] Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, RJ: Ed FEB, 2002, pergunta  920

[4] Pereira, Yvonne Amaral, Memórias de um Suicida, RJ: Ed FEB, 1975, Vale dos Suicidas

[5] MT 24:13

[6] INNOCÊNCIO, J. D. Suicídio. REFORMADOR, Rio de Janeiro, v. 112, n. 1.988, p. 332, nov. 1994