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SER OU NÃO SER?

   Daniel Valois

 

O velho dilema shakespeareano é um patrimônio da humanidade. Quem, durante a jornada terrena, não já se deparou com a dúvida de Hamlet? A cada desafio maior que a existência nos oferece, quando estamos  “naquela” encruzilhada, a dúvida do príncipe dinamarquês se insinua, estimulando o exercício do pensar, na busca da saída que nos parece mais adequada, mais vantajosa ou mais segura. Mas... será o pensar  a estrutura mais segura para a busca da solução dos nossos problemas?

O Mestre Costardi (1) revela que o verbo, entendido como “bloco de energia” ou quanta, quando em estado de contração máxima é pura energia, com o mínimo de tensão, ou seja, o verbo encontra-se em estado de repouso, no núcleo da consciência.  O verbo mais poderoso é AMAR. É o verbo que move as “engrenagens” do Universo e moveu o Cristo a descer à Terra para, pessoalmente, revelar ao homem o segredo da felicidade e o caminho para a plenitude. Aí, no núcleo da consciência, está o Sentimento, carregado com cem por cento de energia da afetividade. Quando o verbo começa a se deslocar para a periferia da consciência, dentro dos domínios do Ego, vai passando por mutações. No trajeto entre o núcleo e o ego, ele passa pelos domínios do Id e transforma-se em Desejo para, finalmente, concluir a sua viagem como Vontade. Sentimento, Desejo e Vontade são portanto momentos da mesma energia dos verbos...

Então, voltamos ao início:  será o pensar a estrutura mais apropriada para solução de problemas? O Sentimento é o radar da mente; sabendo usá-lo, o que não é fácil porque passa pelos arraiais do amor, encontraremos, por certo, o caminho mais seguro para as respostas que buscamos a cada esquina da existência. “Brincar” ou não “brincar” o carnaval? Eis o desafio que a folia anual dos brasileiros coloca diante da consciência.  

Quando amadureci o suficiente para formular juízos com recursos próprios, perguntei-me o que fazer quando o calendário diz que devo colocar outras máscaras por cima das que uso normalmente no dia a dia e sair por aí exercitando meus instintos, inicialmente regredindo à fase animal, pulando como cabrito, urrando como leão, vomitando como cão depois de beber “todas” ou deitando como um leitão, na praça pública, após esgotar preciosas reservas de energias acumuladas ao longo do ano. Perguntei-me então porque nos países europeus mais cultos, mais evoluídos, inseridos no chamado Primeiro Mundo, países onde predomina o protestantismo, porque naqueles países o carnaval não é institucionalizado. Fui buscar então a origem da festa popular e descobri que remonta ao paganismo greco-romano quando era organizada entre novembro e dezembro de cada ano ,tempo em que existiam apenas dez meses, sendo novembro o nono e dezembro o décimo mês. Julio César introduziu mais um, com trinta e um dias e batizou-o, modestamente com o seu nome, Julho, em português... Augusto, pra não ficar por baixo, também elegeu um mês em sua homenagem e batizou-o com seu nome, Agosto, em português. Roubou dois dias ao mês de fevereiro, para ficar também com trinta e um dias, como Júlio César...

Descobri então que Saturno, Baco e Momo, deuses menores, diríamos do time da segunda divisão, filhos da deusa Terra e do deus Céu, exigiam festas longas e libertinas, ao fim de cada ano, para que as  colheitas do ano seguinte fossem abundantes e houvesse muita alegria para todos. Eram as bacanais, as saturnálias e outras orgias, onde o povaréu se misturava – unicamente nessa época – com os patrícios e outras classes que viviam do “dolce far niete” , explorando as classes inferiores onde vivia a maioria das pessoas (artesãos, soldados, campesinos e escravos). Momo era o deus das festas populares, da zombaria, do sarcasmo e da pândega... Aí entendi porque o Brasil, com a enorme população pobre que possui, com um dos menores salários, adequadamente denominado “mínimo”, do Planeta, é o líder do carnaval, sendo a Bahia a expressão máxima da festa de Momo, onde o tríduo foi multiplicado por dez... As pessoas vão para a rua buscando esquecer as frustrações, angústias, sofrimentos e ilusões do ano anterior. É o momento da plenificação do Ego. Gozar tudo hoje porque o amanhã é incerto...  É festa com apoio oficial, êta nós! Preservativos são distribuídos nas carrocinhas de pipocas, nos bares, nas barracas federais, estaduais e municipais, estimulando o povão ao sexo pelo sexo, com os “cuidados” das autoridades da área da saúde para frear um pouco a expansão da AIDS , evitando que, além de campeões de futebol, carnaval e mensalão, nos tornemos, também, tristemente célebres como campeões do número de infectados pela Síndrome da Imuno Deficiência Adquirida - AIDS em inglês. Parafraseando João Ubaldo Ribeiro: Viva o Povo Brasileiro!

 

                                                              Daniel Valois

                                Conselho Regional Espírita de Florianópolis(CRE-1)

                                                          valois@intergate.com.br