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O óbvio

 

 

Emerson Barros de Aguiar


 emerson@etical.org.br

  Há uma aventura de Sherlock Holmes que não pode ser encontrada nos escritos de Sir Arthur Conan Doyle.

Por ocasião de uma de suas intrigantes investigações, o legendário detetive britânico estava acampado juntamente com o seu inseparável assistente, o Doutor Watson. Depois de muito vigiarem, adormeceram vencidos pelo cansaço. A certa altura, Sherlock, acordou-se e, com o seu jeito fleumático de sempre, sentou-se, acendeu o seu cachimbo, despertou o seu companheiro e lhe perguntou calmamente:

- Watson, que constelação é aquela entre a de Cassiopéia e a de Peixes?

- É a constelação de Andrômeda, naturalmente.

- E o que isso quer dizer?

- Elementar, Holmes: quer dizer que estamos no Hemisfério Norte.

- Meu caro Watson, isso significa que roubaram a nossa barraca!

“A verdade é a melhor camuflagem. Ninguém acredita nela”, disse Max Frich. Na fuga para o Egito, quando Pedro respondeu ao guarda de Herodes que era o menino Jesus quem ia escondido dentro do cesto, aquele apenas riu e o deixou passar.

O óbvio não é evidente. Quantos anos a humanidade levou para descobrir a roda? Alguns povos pré-colombianos bastante avançados nem sequer chegaram a descobri-la! O óbvio só se revela a olhos prontos para enxergá-lo. Tudo é uma questão de mirada, de perspectiva. Não existe nenhum aspecto da realidade que não esteja diante de nós. Deve ser por isso que os santos, os místicos e os sábios raramente fazem perguntas. Os poetas também o intuem: a verdade está à nossa frente.

Num dos seus excelentes livros, o rabino Nilton Bonder nos ensina que a realidade possui quatro níveis de percepção: o aparente do aparente, o aparente do oculto, o oculto do aparente e o oculto do oculto. Sendo que a mais insondável destas dimensões do real, o oculto do oculto, só nos é acessível através do aparente do aparente, ou seja, daquilo que chamamos de “óbvio”.

Ver o que esteve, o tempo inteiro, tão claramente diante de nós é uma grande descoberta. O óbvio é o tesouro enterrado embaixo da nossa cama, sempre ao alcance das mãos. O universo se esforça para nos ensinar os seus segredos, mas há um problema de comunicação. Somente aquelas pessoas mais intuitivas captam a mensagem com clareza. Assim ocorre porque ela é demasiadamente simples. As crianças são esse tipo de pessoa. E alguns loucos o são igualmente. Vez ou outra alguém, mais próximo do padrão dominante de comportamento, também consegue enxergar o óbvio. Neste caso, é chamado de “gênio”.

Circunstâncias aparentemente banais podem esconder mensagens e significados muito profundos. Uma simples imagem, um mero ruído ou um diálogo casual podem ser os veículos de indicações preciosas. Quando estamos perto demais das coisas, não as enxergamos bem. Às vezes, é preciso sair do contexto para se ter uma visão mais apurada da situação. Por exemplo: como fica um determinado problema visto de um ponto mais elevado, espiritual? O que antes parecia tão valioso, de repente, perde todo o “valor”. Descobrimos, então, outros tesouros, muito mais raros, importantes e úteis. E o melhor: sempre nos pertenceram! Muitas pepitas douradas se escondem sob o cascalho do cotidiano. A nossa percepção é a peneira que pode garimpá-las. Nesta tarefa, o intelecto fica devendo à intuição. Com o intelecto, aprendemos de fora de nós. Com a intuição, aprendemos de dentro de nós. O óbvio só pode ser captado num átimo de inspiração ou simplesmente não se revela. A intuição não é um esforço, é uma abertura e uma disponibilidade. Desabrocha como uma rosa, quando a mente faz silêncio. E então, parafraseando o evangelho, o cego vê.

Foi assim com este texto, enquanto eu estava preocupado em escrevê-lo, ele não se escrevia.

Conversava em “tempo real”, via internet, com um amigo no outro lado do atlântico, sobre dois assuntos: a gravidez da minha irmã e um certo tema que tinha escolhido para escrever e que estava me resultando um pouco complicado de desenvolver.

No diálogo virtual, informei-lhe que a minha irmã estava, então, com oito meses completos de gravidez.

Logo a seguir ele digitou a mensagem: “Que bom! O bebê já pode nascer a qualquer instante...

- É verdade – respondi – mas espero que nasça só daqui a um mês.

- Como assim?! – Disse-me espantado.

- Ora, para que não haja qualquer problema, para que tudo ocorra bem, no prazo previsto e natural.

- Ele apenas me contestou com a interjeição “hum!...”

Então lhe perguntei: “Estou escrevendo um texto sobre o óbvio. Descobri que não é fácil discorrer sobre este assunto. Tem algo a me dizer a respeito?”

- Bem, Emerson, o óbvio é que já faz tempo que fui pai e tinha me esquecido que uma gestação normal é de nove meses.

“kkkkkkk!”, escrevemos os dois, ao mesmo tempo.

Mais artigos de Emerson Aguiar, em: http://www.jornalonorte.com.br/colunas/?1489