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"O CÓDIGO" E O OUTRO CRISTIANISMO

José Reis Chaves


         O cristianismo no princípio bifurcou-se em dois, como se fossem dois partidos: o ortodoxo apoiado pelos imperadores, e um outro da oposição, chamado de cristianismo gnóstico (conhecedor). E o próprio Jesus era gnóstico: "Conhecereis a verdade e ela vos libertará" (João 8,32).

        O cristianismo oficial escolheu os livros que formam a Bíblia (Vulgata) e impô-la a todos os cristãos, pois o imperador Teodósio 1º decretou que somente o cristianismo ortodoxo era religião legal. A escolha dos livros bíblicos (canônicos) coube a são Jerônimo, no ano de 400, por ordem de Dâmaso, bispo de Roma (os bispos romanos ainda não eram papas). Mas os livros recusados eram aceitos pelos teólogos gnósticos, e ganharam o nome de apócrifos (ocultos) e, mais tarde, os protestantes os denominaram de pseudepígrafos. Eles são também inspirados (Frei Jacir F. Faria, "As Origens Apócrifas do Cristianismo", pág.30, Ed. Paulinas). E também sto Agostinho ensinou que na lama dos apócrifos há ouro! Mas esses livros foram queimados
pelo cristianismo ortodoxo, que perseguiu e eliminou os cristãos gnósticos, os quais não aceitavam que Jesus fosse outro Deus e eram reencarnacionistas.
Alguns frades gnósticos, porém, esconderam cópias desses livros, as quais somente foram encontradas em 1945, em Nag Hamadi, Egito, e que se denominam também de Evangelhos Gnósticos. E em 1947, em Qumran, região essênica próxima do Mar Morto, encontraram-se, também, cópias dos apócrifos conhecidos por "Manuscritos do Mar Morto".

            São Jerônimo, diante da confusão dos originais bíblicos, desabafou-se com Dâmaso: "A verdade não pode existir em coisas que divergem" (nosso livro "A Face Oculta das Religiões", EBM Editora). Os recusados têm erros, como os têm também os escolhidos (canônicos). Mas, como há também verdades nos recusados, perguntamos: Deus quis que as cópias fossem achadas somente agora, quando a Igreja não pode mais proibi-las? Queimar livros prova ou esconde verdades?

            O livro e o filme "O Código Da Vinci", de Dan Brown, são de ficção, sim. Mas o enredo de ambos se fundamenta nos apócrifos e pseudepígrafos que são reais, como são também reais neles as doutrinas teológicas gnósticas do outro cristianismo, o qual sempre teve seus adeptos
e sempre os terá. E agora, sem perseguição!