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Coração liberto

Portas e janelas que se abrem

 

 

Emerson Barros de Aguiar


 emerson@etical.org.br

  

 

         O neozelandês Mark Inglis, de 47 anos, perdeu suas pernas numa tentativa de escalar o Mont Cook, a montanha mais alta do seu país. Teve de passar por um duro período de readaptação depois de seu dramático resgate. Acostumar-se com suas “novas pernas” não foi fácil. Mas ele superou o desafio e voltou a fazer o que sempre gostou: praticar esportes.

 

Assim que se recuperou, Mark ganhou uma medalha de prata nas Paraolimpíadas de Sidney 2000. Logo após, retomou o montanhismo, conquistando o cume do Cho Oyo, o sexto mais alto do mundo, no Himalaya, entre vários outros feitos.

 

         Atualmente, Mark Inglis está subindo o Everest, a montanha mais alta do planeta, situada no Nepal, chegando ao campo base no final da primeira semana de abril de 2006 e prosseguindo por mais dois meses até chegar ao topo. Sorrindo de dentro do seu iglu térmico de lona, e a caminho do teto do mundo, Mark diz, sentado com suas pernas mecânicas: “Esta subida é um verdadeiro desafio e espero que sirva para que as pessoas vejam oportunidades e não problemas”. Mark hoje é conhecido em todo o mundo e celebrado como um herói em seu país, por causa do seu poder de superação e de iniciativa. Um ícone humano.

 

         Uma porta se fechou para Mark quando suas pernas se foram, necrosadas pelo frio, mas várias janelas foram se abrindo depois, com a ajuda da sua boa vontade, coragem e determinação em perseguir os seus sonhos.

 

Há uma infeliz expressão popular que diz: “Cortaram-me as pernas”. Mas. na verdade, ninguém tem esse poder. Quando alguém nos usurpa alguma posição ou nos rouba algum recurso, este alguém não nos está sabotando ou derrotando, por pior que sejam as suas intenções e por maior que seja a sua maldade ou ignorância. Só nós mesmos temos o poder de nos sabotarmos. Deus é uma mão estendida sempre a nos amparar por onde quer que sigamos, indiferentemente do tipo de caminho no qual somos lançados. Quando nos mantemos confiantes, podemos sempre esperar o melhor.

 

No maravilhoso romance “Ben-Hur”, do General Lew Wallace, levado duas vezes ao cinema, em 1925 e em 1959, Messala acredita estar destruindo o ex-amigo Ben-Hur, enviando-o para as galeras romanas, onde poucos sobreviviam mais do que um ano. Na verdade, fazendo isso, deu-lhe a chance de ser adotado, como filho, por um cônsul romano.

 

Os exemplos de vitórias, sempre que mantemos a fé em Deus e na vida, são inúmeros, tanto na ficção quanto na realidade. Quando estamos em sintonia com a força Divina em nosso coração, sentimos que nos bastamos para sermos felizes, que temos a dádiva da vida e que devemos celebrá-la com alegria e que nunca estamos sozinhos. Uma vez que Deus está conosco, sempre há um anjo nos vigiando.

 

Quando temos amor e paz no coração e uma profunda confiança do projeto de Deus para a nossa vida, ninguém pode realmente “puxar nosso tapete”.

 

Mas não basta crer apenas. Precisamos também aprender a compreender e a perdoar aqueles que traíram a nossa confiança, que nos feriram, que nos insultaram, que nos desprezaram, que mentiram para nós, abusando do nosso afeto, ternura e confiança. Precisamos aprender a esquecer e banir do nosso coração qualquer desejo de revide, de revolta. E tornamo-nos capazes de desejar-lhes o bem, de orar por eles e de ajudá-los, nem que seja à distância e anonimamente, para que a lâmpada do amor se acenda em nosso coração.

 

Que o nosso coração despedaçado e que a nossa alma humilhada, floresçam como a vitória régia, pura e linda, indiferente à lama. Precisamos aprender a ter piedade de quem nos ignora, menospreza ou odeia. Piedade e amor, como nos ensinou Jesus, com seus gestos de carinho e gentileza, diante da brutalidade e da violência.

 

O nosso maior bem não é a nossa reputação, nem aquilo a que chamamos de “honra”, tampouco é o nosso saldo bancário. O mais precioso relicário da alma é a consciência tranqüila e em paz. Diante da morte, que nos visitará a todos, hoje ou amanha, somente isso valerá.

 

Enquanto a pessoa perversa tem medo da própria paz, quem busca perdoar a recebe como um presente. Portanto, não há motivo para o desanimo ou para o desespero. Nenhuma circunstancia da vida, seja ela acidental ou provocada por alguém, pode nos atingir de fato, se acreditamos que tudo o que ocorre tem o objetivo de nos ensinar algo e de nos levar a uma maior felicidade, fruto de um maior entendimento.

 

O coração liberto do ódio e a mente inundada de luz são a nossa vocação comum.  Ninguém merece viver encharcado de rancor ou de autopiedade. A vida é um campo aberto, repleto de Divinos roteiros de luz, para todo aquele que possui o coração leve e em paz.

 

O amor é a janela da alma. Não importa quantas portas se fechem, quando há amor, temos sempre uma abertura para a felicidade. Quando uma porta se fecha, uma janela se abre. E, para bom entendedor, a paisagem, vista da janela, é muito mais bonita.

 

Mais artigos de Emerson Aguiar, em: http://www.jornalonorte.com.br/colunas/?1489