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Contato com espíritos

 

Alamar Régis Carvalho

   alamar@redevisao.net

 

        Às jornalistas: Lika Rodrol e Lorena Verli

 

          Prezadas jornalistas:

 

         Tive a oportunidade de ler a matéria “Contato com espíritos”, publicada na revista Ana Maria desta semana e assinada por vocês, quando comentam sobre as aparições da personagem Nanda, em espírito, na novela “Páginas da Vida” da Globo, sobre a qual eu gostaria de tecer alguns comentários, em nível de colaboração, já que na referida matéria constam alguns equívocos, inclusive de ordem  jornalística.

         Em princípio vocês se referem ao contato da personagem com a sua mãe Marta (Lília Cabral) como sendo coisa sobrenatural, quando na realidade é sobrenatural apenas para quem não estuda e, muito menos, conhece o assunto, já que para muitas outras pessoas trata-se de coisas bem naturais.

         Depois que vocês abordam o acontecido na novela, quando a Marta viu, com seus próprios olhos, e assustou-se, ao deparar com a filha (“morta”), ao lado da criança, acariciando-a, e ainda ligou o carrossel de brinquedo, ficando atônita, encerram o parágrafo com a pergunta: “será que é possível se comunicar com pessoas mortas?”.

         Até aí é válida a pergunta, já que a maioria das pessoas é absolutamente ignorante quanto a esse assunto, analfabeta mesmo, chegando até o ponto de vincular questões desse tipo sempre necessariamente como assunto religioso, coisa de crença e nada mais do que isso. Esses assuntos estão muito acima de crença.

         Mas o que mais chamou-me a atenção, Lika e Lorena, foi quando vocês colocaram aquele título destacado: “Jesus nunca viu espíritos”, e logo em seguida reproduzem a infeliz fala do “teólogo” Fernando Altmeyer, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo que afirma: “Jesus nunca viu um espírito, por que nós conseguiríamos ver?”.

         Não repare a minha colocação da palavra teólogo entre aspas, pois não se trata de deboche ou indiferença, trata-se apenas de chamar a atenção de vocês que teologia significa o estudo de Deus, mas conforme as conveniências e visão da religião que ministra o curso, que sempre reflete a forma como ELA vê Deus.

         Portanto, o Deus que ele conhece é conforme a visão católica, os seus conceitos são conforme a visão católica, certamente devendo acreditar na estória de Adão, Eva e a cobra, etc...

         Saibam, amigas, que quando alguém diz que Jesus nunca viu espíritos, implica em que não conhece, ao menos, os quatro Evangelhos adotados pela sua própria igreja (existem outros, que ela não quis adotar), porque eles retratam vários momentos de contatos de Jesus com espíritos, dentre os quais um que ficou super evidente, na presença de Pedro, João e Thiago, quando ele não apenas viu, mas permitiu às três testemunhas que também vissem Moisés e Elias, no monte Tabor. É bom que o teólogo saiba que tanto Moisés quanto Elias já haviam morrido, há muito tempo e eram espíritos. Como, então, Jesus nunca viu um espírito?

         Maria Madalena e os apóstolos, também, viram o próprio Jesus, depois que ele morreu. Como não acreditar ser possível ver espíritos?

         Mas até que é aceitável alguém não prestar atenção em alguns trechos ou, em alguns casos, fingir que não viu.

         É bom lembrar ao teólogo católico, amigas, que entre os próprios católicos existem inúmeros relatos de pessoas que viram Maria, que também já morreu há muito tempo.

         Mas vamos em frente, na matéria de vocês.

         É feita esta citação: “Os relatos sobre a ligação com os mortos ainda são um campo nebuloso para a ciência”. Não é bem assim não, o correto seria vocês afirmarem que são um campo nebuloso para ALGUNS segmentos da ciência.

         Já mais adiante vocês afirmam: “Alguns estudiosos acreditam que as mensagens que muitas pessoas afirmam receber do além pode ser apenas manifestação da mente humana”.

         Aí sim, vocês foram mais coerentes e honestas, jornalisticamente falando, em colocaram o Alguns, porque de fato são apenas alguns estudiosos que acham isso, nem todos.

         Muitos religiosos e cientistas de algum tempo, presunçosamente, afirmavam que o Sol girava em torno da Terra. Eram tão arrogantes que não diziam “nós achamos”, “na nossa opinião pessoal” o Sol gira em torno da Terra, eles afirmavam, como sendo verdade. Imaginem se pudessem voltar ao mundo hoje, do mesmo jeitinho como eram, como morreriam de vergonha, hem?

         Mas o grande momento de infelicidade da matéria de vocês está nessa citação absolutamente inconseqüente:

         “A verdade, no entanto, é que até hoje nem a ciência nem qualquer religião conseguiram comprovar ou negar definitivamente essa possibilidade”.

         A Verdade???? Que maluquice é essa, amigas? Que verdade é essa?

         Isso aí é opinião pessoal de vocês, que estão deixando os seus pontos de vistas religiosos particulares influenciarem a atividade jornalística de cada uma, quando por ética profissional teriam obrigação de serem absolutamente imparciais.

         Que papo é esse de verdade?

         Algumas pessoas, ALGUNS homens de ciência não conseguiram comprovar ser possível a comunicação com os “mortos”, porque nunca estudaram imparcialmente este assunto, sem as amarras dos preconceitos religiosos.

         Se disséssemos: Alguns brasileiros não conseguiram provar ser possível chegar à Nova York, poderia até estar correto, porque nem todos os brasileiros tentaram chegar àquela cidade.

         Muitas pessoas, muitos estudiosos, muitos cientistas e pesquisadores conseguiram sim comprovar a possibilidade de comunicação com os “mortos”, com todos os indispensáveis cuidados éticos que as pesquisas sérias requerem, sem se deixarem levar por fraudes, sem se deixarem confundir com as alterações da mente, com processos psicológicos ou parapsicológicos etc... Vocês é que estão muito desinformadas acerca disso.

         Esse desfecho que vocês deram, ao afirmarem: “o mais provável é que, diante da imensidão do universo e de seus mistérios, isso jamais aconteça” foi de uma infantilidade sem tamanho.

         Saibam de uma coisa, amigas: O orgulho de determinadas pessoas é tão grande que, quando desconhecem coisas do espírito, por causa do seu preconceito ou preguiça em estudar, começam a dizer que são mistérios.

         É uma pena.

         Sugiro a vocês, que suponho serem jornalistas novas, que preservem a imagem de vocês, zelem  pela ética profissional, não correndo riscos de perderem a credibilidade fazendo afirmativas como estas porque, assim como têm leitores que se dispõem a mandar textos que orientam podem ter outros que formarão conceitos definitivos sobre vocês, inserindo-as no universo das praticantes do jornalismo ridículo.

         Formar um conceito ético e credibilidade jornalística é algo que demora anos, mas perder essa credibilidade é algo que pode ocorrer de uma hora para outra, numa simples matéria quando tentamos subestimar a inteligência dos leitores.