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Caridade e Esmola

 

 

 

Alamar Régis Carvalho

 

alamar@redevisao.net

 


 

Caridade e Esmola

 

Em fevereiro de 1987, em visita à cidade de São Paulo, deparei-me com uma cena que me deixou encantado numa noite fria. Transportadas por uma Kombi, algumas pessoas voluntárias da LBV (Legião da Boa Vontade), distribuíam sopas e roupas para mendigos e meninos de ruas.

Achei maravilhoso aquilo e tomei uma decisão na hora: Voltando à cidade onde eu morava na época, faria eu a mesma coisa.

Um mês depois lá estava eu com a minha família, companheira e filhas, a sair às ruas de Belém do Pará, todas as noites, a partir das 22 horas, a também alimentar mendigos, meninos de ruas e prostitutas.

Realizávamos o trabalho todos os dias, de segunda a sexta-feira, saindo com a mala do meu carro, um opala diplomata, cheia de alimentos, sanduíches, sucos, roupas usadas e até algumas novas que comprávamos em lojas em liquidações. Conseguíamos alguma coisa por doação também.

Era uma beleza! Eu vivia empolgadíssimo com aquele trabalho que crescia a cada dia, não via a hora de chegar às dez horas da noite pra sair, depois do agradável trabalho de preparação dos sanduíches e dos sucos que aconteciam na cozinha da minha casa.

Em obediência ao ensinamento do Evangelho que recomenda que “A mão esquerda não saiba o que dá a direita”, consciente de que o bem que aqui se faz não deve ser ostentado e toda publicidade dele deve ser evitada, preocupava-me em deixar que ninguém soubesse daquela tarefa, a não ser a dona Naza Gorda, funcionária da tesouraria da minha empresa, a quem pedíamos o dinheiro todos os dias para a compra dos gêneros a serem distribuídos.

E assim foi feito ao longo de 9 anos consecutivos.

A tarefa cresceu tanto que chegamos a alimentar uma média de 100 pessoas, diariamente.

Novas necessidades surgiam a cada dia. Chegávamos a pegar mendigos doentes e colocá-los em nosso próprio carro, junto com as filhas, a fim de levá-los ao pronto socorro municipal para atendimento médico. Geralmente conseguíamos atendimento, posto que eu fui uma pessoa bem conhecida em Belém.

Um certo dia, já no ano de 1995, coincidentemente uma equipe de reportagem da TV Liberal (afiliada da Rede Globo local, onde sempre tive bom relacionamento) passando pela praça da República, viu-nos realizando a tarefa, parou ao nosso lado e já desceram com câmera ligada e repórter com microfone na mão, filmando tudo e entrevistando-nos.

Aí não teve mais jeito. O Jornal O LIBERAL também publicou matéria, toda a imprensa falou no assunto e começaram a aparecer voluntários de todos os lados, pessoas católicas, protestantes, espíritas, etc... Terminamos comprando uma Kombi zero quilômetro para fazer o trabalho que passou a ser chamado de “Caravana da Caridade”. Valorosos companheiros, como José Iranides Gouveia, Guilherme Tadeu e outros resolveram também inventar dar banho nos mendigos, todos os domingos, com ajuda de viaturas do corpo de bombeiros, promover cortes de cabelos, barbas e unhas, além de curativos.        

Era mesmo uma beleza! Eu estava me achando o máximo! Certo de que estaria bem afinizado com Jesus, já que ele ensinara que “quando você der de comer a um faminto, é a mim que você estará alimentando”, “quando você vestir a um nu é a mim que estará vestindo”... e por aí se conduzia a minha compreensão religiosa.

Mas será que a coisa deveria ser feita daquele jeito mesmo? Eu não teria condições de dar esta resposta a mim mesmo.

Em visita a um grande líder do meu segmento religioso filosófico, em Salvador, Bahia, Divaldo Franco, fui dar conhecimento a ele de que fazíamos aquele trabalho em Belém, ao longo de vários anos, na certeza de que o amigo tecer-nos-ia algum tipo de elogio, autenticasse o trabalho e até nos dissesse “É isto mesmo, continuem, porque Jesus está adorando o que vocês estão fazendo. Está tudo muito certo”.

Para a minha surpresa não foi bem isto que ele disse. Achou bonito, sem dúvida alguma, mas recomendou que tivéssemos mais cautela e indispensáveis cuidados ao definirmos as palavras CARIDADE e ESMOLA.

“A Caridade eleva, mas a esmola humilha” era uma das muitas citações que ele fez.

 

O que significa isto?

 

Quero convidar aos meus amigos e amigas, leitores, para algumas reflexões em cima desta questão.

Muitas pessoas vivem a dar dinheiro nas ruas, certas de que estão “ajudando aos necessitados”. Diante de uma cena, quando uma criança pedinte chega próximo ao nosso carro, baixamos o vidro, morrendo de pena, e colocamos dinheiro na sua mão.

Quando se trata de uma mulher com uma criança no colo, aí que não tem jeito mesmo, nos compadecemos daquele “sofrimento” e haja dinheiro na mão.

Ao longo dos anos que desempenhei a tarefa da caravana da caridade, já vinha percebendo determinadas coisas, mas fingia que não as estava vendo. Afinal de contas, eu estava ajudando aos mais necessitados e não teria como aquilo ali ser algo errado.

Depois do alerta do nosso amigo de Salvador, que mais coisas me disse acerca da prática da autêntica Caridade, comecei a refletir em cima de todos os momentos vividos naquela tarefa e cheguei a algumas conclusões que passo aos meus leitores, talvez tão “bonzinhos” como eu fora em determinada época.

Nem todas as pessoas que estão pedindo nas ruas são, de fato, necessitadas.

Apenas 20%, no máximo, realmente têm necessidades.

A mendincância é um negócio para muita gente e, em muitos casos, uma forma de esconderijo para muitos bandidos.

A maioria das crianças que recebe dinheiro em sinais de trânsito e na rua, de um modo geral, repassa para os pais que, também em maioria, utilizam para a sustentação de vícios, como cachaça, cigarro e outros.

A insensibilidade e ignorância desses pais são tão grandes que muitos deles preferem ver a criança fora da escola, uma vez que é mais negócio deixá-la na rua pedindo, pedindo e pedindo. Dá mais dinheiro.

Por incrível que pareça, há pais que estabelecem “quota mínima” para os seus filhos, para cada dia, ameaçando-as com surras, caso não consigam cumprir: “Se o Pedrinho consegue levar 30 reais, todo dia, para os pais dele, porque você só trás 10 reais?”. Por causa disto muitos roubam, mesmo sem terem o instinto de ladrões.

Fui informado acerca de uma estatística, na cidade de São Paulo, dados de 2003, que aponta o faturamento médio mensal de pedintes, mulheres, conforme a tabela a seguir:

           

Condição da mulher

Faturamento médio mensal

Somente a mulher pedindo

400,00

Mulher com criança no colo

700,00

Mulher portando criança com ferida exposta

1.100,00

 

Há mulheres que não curam, propositalmente, as feridas das crianças, para não haver redução no faturamento e há, também, empréstimo de crianças para outros pedintes realizarem os seus trabalhos, desde que sejam pagas comissões sobre o faturamento.

Mas existe também a figura do chamado “flanelinha”, aqueles meninos, rapazes e até adultos que se apresentam nas praças, ruas e avenidas se oferecendo para tomar conta e lavar o seu carro, quando você estaciona.

Alguns desses postam-se nos sinais de trânsito e já aparecem jogando água no para brisa do seu carro, queira você ou não o “serviço” prestado por eles, e se aborrecem quando você recusa, tomando atitudes de riscarem o carro e até quebrarem o retrovisor, antena ou limpador de para brisa.

É um perigo a figura do “flanelinha”; é neste universo que se escondem os maiores ladrões do país... oh!!! desculpe, houve um equívoco meu aqui, os maiores ladrões do País estão no Congresso Nacional e nos bancos, o correto aqui é dizer que neste universo se escondem muitos outros ladrões, não necessariamente os maiores.

Na figura do flanelinha, muitas vezes, está camuflado o repassador de drogas, também o garoto que tem quota mínima pra levar dinheiro para os pais, o informante de bandidos, o próprio bandido que rouba ou facilita roubar o seu carro e também aquele que faz cópia da chave, quando você comete a ingenuidade de deixar chave com ele.

 

E então, não devemos ajudar a ninguém?

 

Devemos ajudar sim, mas com responsabilidade e inteligência.

Na maioria das grandes cidades existem casas de assistência social ao mendigo, ao idoso abandonado e ao garoto de rua que não tem onde morar.                     

Só que a maioria deles não quer ir para essas casas porque, geralmente, são ambientes onde existe disciplina, horário para alimentação, educação, horário para atividades diversas, exigência de higiene pessoal e não se permite a entrada de cigarros ou bebidas alcoólicas.

É óbvio que eles preferem a rua, onde ganham muito mais, podem roubar a vontade, não têm ninguém para encher as suas paciências com conversa de disciplina, hora pra comer, hora pra tomar banho e podem fumar e tomar a sua cachaça à vontade.

Paremos todos de dar esmolas nas ruas, já que esmola não é caridade, e destinemos os recursos que temos, para ajuda ao próximo, às casas verdadeiramente destinadas à assistência social, muitas delas dirigidas sob orientação católica, espírita, protestante, do rotary, do lions e até mesmo pelas próprias prefeituras das cidades.

O cuidado indispensável que devemos ter é de, antes de elegermos uma instituição para receber a nossa quota de ajuda, procurarmos conhecer bem a instituição, conhecer bem os membros da sua diretoria já que, infelizmente, há safados também em grandes instituições de caridade, por incrível que pareça, e exigirmos uma espécie de prestação de contas à sociedade ou, pelo menos, aos grandes contribuintes da casa.       

Não nos deixemos levar por PENA daquela figura que se apresenta a nós em estado deprimente, porque aquilo, em maioria, é coisa teatralizada pra comover mesmo. Tenhamos a certeza de que quem realmente está necessitando, aceitará a mão estendida dos assistentes sociais e aceitará, sem dúvida alguma, ir para uma das casas de recolhimento.

Tentei, em Belém, levar muitos deles para uma dessas casas, mas a maioria recusava. Quando conseguia levar um ou outro, dois dias depois estava na rua novamente, no mesmo ponto.

Quando dávamos roupas limpas a mendigos que estavam com vestes podres, imundas e fedorentas, achando que estávamos ajudando, surpreendíamos no dia seguinte ao vê-los vestidos com os mesmos trapos porque trocara por cachaça a roupa que lhe demos no dia anterior.  

Tenhamos, portanto, o maior cuidado na questão do ajudar o nosso próximo. A frase do  “quem faz o bem não olha a quem” deve ser melhor interpretada e temos que olhar, sim, para não cometermos os equívocos de alimentar vícios em vez de ajudarmos a quem realmente necessita.

A caridade é inteligência, mas a esmola é inconseqüência.

 

 

                                     Alamar Régis Carvalho

                                           Analista de Sistemas e Escritor

                                                   alamar@redevisao.net

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