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Bem e mal sofrer

Palestra proferida por

Ricardo Artur Rosa

Centro Espírita da Fraternidade Cícero Pereira – CECIPE

 


 

CENTRO ESPÍRITA DA FRATERNIDADE CÍCERO PEREIRA – CECIPE

 

Evangelho Segundo o Espiritismo – ESE

 

Capítulo V – Bem aventurados os aflitos

 

Itens 18 e 19 – Bem e mal sofrer

 

Data : 10.07.2007

 

                  Que a paz do Mestre esteja com todos.

                 

                  Tudo passa! Não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe!

                  Como se um iluminado eu fosse, assim poderia começar uma palestra com um tema difícil como o que me foi proposto: Bem e mal sofrer.       

                  Poderia também dizer ou aconselhar a cada um que está em seu sofrimento particular, que tivesse fé, que tratasse de reagir, que a vida é assim mesmo, puxar uma frase tantas vezes repetida: “O diamante bruto precisa ser lapidado...” e coisas parecidas.

                  Nem me passa pela cabeça fazer-me de imune ao sofrimento e às dores e tentar bancar o superior: Paciência! Conforme-se!.

                  Exceto algumas crianças que estão ainda por passar por obstáculos na vida, e certamente os terão pela frente, todos nós sabemos muito bem o que são a Dor e o Sofrimento.

                  No campo físico, a dor, um espirro, a febre são avisos  quando algo em nosso organismo está fora do normal. Logo nosso sistema imunológico é acionado para que atue e bote ordem na casa. Assim ela, a dor, é a maneira como nosso organismo físico reage para nos dizer que alguma coisa está prejudicando seu funcionamento normal.

                 Quando é só um incômodo, tendemos a deixar como está para ver como é que fica. Em alguns casos há quem procure primeiro a farmácia caseira, o chazinho da vovó etc. para que o alívio chegue o mais rápido possível.

                 Mas, quando a dor aperta, corremos ao médico. Depois de perguntar o motivo da visita, pede uma série de exames de maneira a obter um diagnóstico mais seguro. Enquanto os resultados não vêm, a dor está lá, vai e volta.

                 Dado o diagnóstico, vem aquela série de medicamentos, uns calçando os outros: Tal remédio para o estômago ataca o fígado, o do fígado ataca os rins etc., etc. Isso, quando dão certo. Quando não, aquela caixa já iniciada vai para o lixo e tenta-se um outro, para alegria das drogarias e agentes de propaganda que não esquecem de colocar aquele lembrete que ninguém lê: “Se persistirem os sintomas procure o médico”. Ora...

                 Mas a causa, quem liga para ela? O estressado continua a se estressar, o sujeito com úlcera volta ao sarapatel ou à pinguinha (só umazinha para o santo!) e assim por diante.

                  Alguém então se lembra de indicar um homeopata para que a causa do mal seja tratada. Nisso, o doente vem com a história de que “o tratamento é demorado”, “que tem mais o que fazer para ficar o dia inteiro pegando aquele monte de vidrinhos na prateleira” e... tome de analgésico. É o nosso imediatismo falando mais alto que nossa razão.

                  É bom que eu pare de falar sobre problemas físicos! Daqui a pouco vão me acusar de prática ilegal de medicina e lá vou eu passar umas férias forçadas por conta do Estado.

                  Mas, e quando a dor se manifesta pelo lado moral?                 

                  Para necessidade de ouvir mais do que falar, fui buscar no ESE um trecho da mensagem de Lacordaire, passada na cidade de Havre-França, em 1863: Quando o Cristo disse: “Bem-aventurados os aflitos, o reino dos céus lhes pertence”, não se referia de modo geral aos que sofrem, visto que sofrem todos os que se encontram na Terra, quer ocupem tronos, quer jazam sobre a palha.

                Mesmo assim, não há problemas iguais, pelo simples fato de que somos únicos, não foram produzidas cópias nossas. Clones físicos podem existir aos montes, no entanto, não há a mínima possibilidade de clones espirituais. Está no Evangelho segundo João (3,6), que: “O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito”. Os problemas podem se assemelhar, mas igualdade, nem pensar.

                 De uma forma ou de outra, por ter passado, ainda passar ou sabendo que ainda passarei por problemas, que alguns deles até se assemelhem, dependendo do que se tratar, eu poderia até dizer a quem me procurasse: “Acho que sei sim companheiro! Já estive numa parecida!”. Sem qualquer afetação ou pose de superior.

                   Será que a saída estaria nas prateleiras das livrarias? Elas estão cheias de livros de auto-ajuda. Doutor isso ou doutor aquilo, Mestre ou PhD em comportamento humano por alguma dessas Universidades cinematográficas jogam exemplos, dão dicas, enfim, dizem com todas as letras: “Seja um vencedor”, como se pertencessem às Organizações Tabajara: : “Seus problemas acabaram!”, apresentando passos e regras para que você encontre o Paraíso Perdido ou ainda não encontrado. E enriquecem dizendo aquilo que todos sabemos: “A solução de seus problemas está em você mesmo”.                   

                   Surge aí o impasse: “Qual a solução? Gostaria de ter uma fórmula ou poção mágica que pusesse fim ao sofrimento humano, como aquele analgésico imediatista. Para obstáculos de fundo moral, que nos desgastam e incomodam, “não há remédio de resultados imediatos”.

                  No entanto, sei de um médico que tem a solução e não cobra um centavo pela consulta. Creio que todos aqui, dos dois planos, no mínimo, já ouviram falar dele. Na porta de seu consultório, há uma placa escrita:

 

              Dr. JesusMédico de Almas – Professor e Especialista

                 

                  Sob esse título, um de seus assistentes, chamado Mateus, escreveu:

 

Vinde a mim, vós todos que sofreis e vos achais sobrecarregados, e eu vos aliviarei.

                  Embora esse médico, por sua excelência e sabedoria já saiba, antecipadamente, do que se trate, faz com que o paciente se auto-examine e lhe recomenda um exercício chamado Exame de Consciência que, ao final possibilitará fazer, ele mesmo, o próprio diagnóstico. Esse exame é fundamental ainda que incômodo para o paciente. Por vezes, duro, amargo até.

                  Recomenda, então, o doutor ao paciente: perguntar-se sobre tudo o que fez durante sua vida, principalmente se seus atos, de alguma forma, trouxeram prejuízo a alguém ou a si mesmo. Das respostas que obtiver virão os indicadores na procura das causas.

                  Esse exame, por sua complexidade, é bastante demorado, mas funciona também como medicamento. A cada passo de sua execução, surgirão situações em que o paciente irá perguntar a si mesmo, sem absolver-se, sem “mas, mas”: “Por que não tomei outro caminho?”, “Podia não ter feito aquilo!”. Perguntas e conclusões irão aparecendo e, ao final, surge o auto-diagnóstico, sem que o Dr. Jesus precisasse dizer ou fazer nada.

                  Os problemas surgem depois de obras mal-feitas ou negligenciadas. Não é preciso nenhum exercício profundo de pesquisa, basta partir do pressuposto de que tudo aquilo que nos acontece é justo, em razão de que o administrador da justiça é perfeito. Em um de seus ensinamentos aquele médico-professor disse: “A cada um será dado segundo suas obras”, portanto...                

                  Por outro lado, se feito o tal exame de consciência e o paciente não encontra uma razão plausível para aquele problema? Como explicar a partida de um ente querido seja lá qual for o grau de parentesco ou amizade? Que resposta dar àquele ou a seus pais sobre a razão de uma deficiência física de nascença?

                  Kardec nos diz que, nesse caso, se não encontramos uma explicação sólida nesta vida, certamente ela estará em vidas passadas.

                  Seria muito cômodo dizer ao que sofre, olimpicamente, que tudo é resultado de seus desacertos, que deve resignar-se e aceitar seu estado e estamos conversados. Ou, arvorando-nos em juízes e perfeitos conhecedores do gênero humano, dizemos ou pensamos logo: “Alguma ele aprontou!”.

                  É nessas horas que os ouvidos devem estar disponíveis para aquele que sofre. Mais como um “chá de desabafo” do que outra coisa. As palavras que dissermos na tentativa de aliviar ficam para o fim ou para uma hora mais conveniente. Não foi à toa que Deus nos deu um par de ouvidos e só uma boca.

                 Confesso que não tenho aquele medicamento miraculoso de alívio imediato, mas é obrigação minha ou de qualquer outro que se diz cristão e espírita, o exercício da compaixão, assim como tentar compreender as atitudes e palavras às vezes revoltadas de alguém que está sofrendo.

                  Dito tudo isto, o que vem a ser “bem sofrer e mal sofrer”?

                  Não seria demais dizer que estamos em um mundo de provas e expiações. Desde que se afirme a reencarnação, como na Doutrina Espírita, que já vivemos outras vidas, que o mal-feito merece reparação e que o perdão é a base de tudo, daí surge uma primeira resposta. Se entendermos a reencarnação como verdade, os remédios homeopáticos resignação, reforma íntima e paciência, em gotas ou pílulas, já são a primeira medicação, o caminho da cura.    

                  As doenças mais graves, todas, têm seus remédios. Evidente que, como todo medicamento, não é só uma dose que vai trazer a cura. Alguns desses medicamentos trazem alívio em curto espaço de tempo, outros serão de uso continuado. Por exemplo: o Dr. Jesus indica dois como de uso continuado: “Vá e não peques mais” e “Orai e vigiai”.

                  Esse Mestre deixou-nos uma lista de exercícios preventivos denominada Sermão da Montanha (Mateus 5, 6 e 7) que, embora de difícil vivência e execução em sua totalidade, se praticados calmamente e sem afobação nem alarde, em todas as suas variações resultarão no conforto, consolo e cura de todos os males resultantes de causas diversas, tais como o egoísmo, o orgulho, o..., a... e, quem sabe mais alguma doença do mesmo tipo para me ajudar nesta palestra?

                  Viram como aumentamos a lista? Nós sabemos das causas ...

                  Então? Se sabemos as causas, quais os antídotos?

                  Vou começar: altruísmo, humildade, benevolência ... Que mais?

                  Viram, somos médicos de nós próprios, sabemos o mal e o remédio.                  

                   Nesse ponto, volto à mensagem de Lacordaire a que já recorri:

Mas, ah! poucos sofrem bem; poucos compreendem que somente as provas bem suportadas podem conduzi-los ao reino de Deus. O desânimo é uma falta. Deus vos recusa consolações, desde que vos falte coragem. A prece é um apoio para a alma; contudo, não basta: é preciso tenha por base uma fé viva na bondade de Deus. Ele já muitas vezes vos disse que não coloca fardos pesados em ombros fracos. O fardo é proporcional às forças, como a recompensa o será à resignação e à coragem.”.

                    Lacordaire nos fala de “fé na bondade de Deus”. E isto me faz lembrar uma outra passagem do Evangelho: “Pedi e se vos dará ...Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão? E, se lhe pedir um peixe, dar-lhe-á uma serpente? Se vós, pois, que sois maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais nosso Pai celeste dará boas coisas aos que lhe pedirem” (Mateus 7, 7-11).

                    Se interpretarmos ao pé da letra tanto o Salmo 22: “O Senhor é meu pastor e nada me faltará...” quanto aquela velha recomendação : “Entregue a Deus...”, ficaríamos tentados a levariam a ficar sentados à beira do caminho vendo a banda passar ou, como a Carolina, que não viu o tempo passar por sua janela. E isso não levaria a mudança nenhuma.                    É bom pensar que, de uma forma ou de outra, algum trabalho nos cabe. Não seria mais correto pensar em: “Deus ajuda a quem trabalha?”.

                    Seria muito cômodo pensar que nada faltará e Deus resolverá todos os nossos problemas, mas a sabedoria popular lembra logo o “ venha a nós? E ao vosso reino, nada?”. Talvez por causa de interpretações como essas é que São Paulo nos tenha dito que: “A palavra mata, só o espírito vivifica!”.

                    Como disse Lacordaire, a fé precisa vir acompanhada da coragem, o “Levanta-te e anda!”. Além disso, em Mateus 7,12, há um lembrete muito importante para se juntar a elas, “Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles. Esta é a Lei e os profetas”. Sem ele, o caminho para o mérito fica mais longo e difícil, e talvez seja causa de muitos males que nos afligem e nos deixam inconformados ou “mal-sofredores”.

                    Isso quer dizer que, se tratarmos nosso próximo com suavidade, teremos suavidade de volta. Em caso contrário, se o próximo for mais forte ou praticante de lutas marciais, o resultado será desastroso.

                   Mas, ainda que o adversário não reúna aquelas qualidades para auto-defesa, há um outro personagem vivendo dentro de nós mesmos que, mais dia menos dia, nos cobrará uma reparação: nossa consciência. E ela cobra. Com mais freqüência e assiduidade do que o turco da prestação com aquele seu infalível caderninho. E não adianta fugir pela porta dos fundos ou pela janela. Essa cobradora é eficiente e sempre nos alcança. Dessa cobrança resulta o sofrer.

                   Se conseguirmos nos resignar e passar a agir como propôs Jesus no Sermão da Montanha, é certo que os golpes serão mais amortecidos. Isto traduz o “bem sofrer”, como nos recomenda Lacordaire: “Quando vos advenha uma causa de sofrimento ou de contrariedade, sobreponde-vos a ela, e, quando houverdes conseguido dominar os ímpetos da impaciência, da cólera, ou do desespero, dizei, de vós para convosco, cheio de justa satisfação: Fui o mais forte.”.

                   Dirão alguns: “Conselhos! Conselhos e mais conselhos! Quem os quer? Se conselho fosse bom...”. Ao desprezá-los sem qualquer reflexão trazemos para perto de nós o tal de “mal sofrer” e, junto com ele, entidades sofredoras que, a exemplo de telespectadores ou ouvintes de rádio, gostam de nossa programação e vem procurar o artista. Sentam-se na platéia e passam a seguí-lo como fãs que rodeiam seus ídolos televisivos ou radiofônicos. Muitas das vezes, não por mal, mas por simples afinidade.

                   O que isto quer dizer? Uma obsessão que se instala. Nesse caso, quem é o obsessor? Uma balinha para quem disse “o mal-sofredor”.

                   Em determinadas situações, e aqui não quero de forma alguma situar-me como insensível, o “mal-sofredor” não deixa em paz o objeto de seu sofrimento.

                   Aquele ciumento que não desgruda. Quer saber dos mínimos detalhes, horários, ocupações, tudo enfim. Torna-se ele um obsessor da coitada. E isso funciona nos dois planos. Ciumentos desencarnados juntam-se ao ciumento encarnado e enchem-lhe os ouvidos. Eles “sentem” as vibrações emitidas, aproximam-se e coitados dele e da pobre. E ele ainda se lamenta a respeito do comportamento dela: “Ela está muito estranha!” Entretanto, ciúme não é prerrogativa dos homens, está presente em ambos os sexos.        

                   O que cabe fazer numa hora mais dolorosa?  Um ente querido de alguém partiu desta vida. Ficamos sem saber onde colocar as mãos. Dizer o quê? Nada! Simplesmente ouvir e orar tanto pelo que foi como pelos que ficaram. Nessas horas, até a mais dura pedra se comove, chora, lamenta-se e, para isso, só o tempo como remédio. Não adianta dizer bobagens dignas de Conselheiro Acácio ou sábios de plantão como: “Considere que ele foi fazer uma longa viagem!”. Muito fácil apresentar sugestões desse tipo, mas, com certeza, ouviria de volta: “É porque não é contigo! Só eu sei o que estou passando!”.

                   Trata-se de conseguir que se quebre o círculo vicioso. Com o tempo, a ferida sara. De dentro para fora. O problema é que, quando se forma aquela casquinha, o “mal-sofredor” passa a unha, a ferida se abre de novo e novamente sangra.

                   É certo que lembranças virão. Pois que sejam as mais prazerosas e não aquelas que resultem em lamentações. Conseguir fazer entender que a tarefa do viajante já estava concluída e nós é que ainda não concluímos as nossas. É difícil aceitar? De imediato? Quem consegue? Ao longo do tempo, sim, e aí aparece o “bem e o mal sofrer”, resignação ou inconformismo.  

                   E, pensando na relação com o tempo, recorro a outro conselheiro, o livro Eclesiastes, Capítulo 3, de onde tirei alguns trechos:

                  “Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus:

                   Tempo para nascer, e tempo para morrer;

                   Tempo para plantar, e tempo para colher;

                   Tempo para adoecer, e tempo para sarar;

                   Tempo para chorar e tempo para rir;

                   Tempo para dar abraços e tempo para apartar-se;

                   Tempo para procurar e tempo para perder;

                   Tempo para calar e tempo para falar;

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                   Deus julgará o justo e o ímpio porque há tempo para todas as coisas e tempo para toda a obra”.

                   A literatura, não só espírita, é farta e nos mostra obras e mais obras em que aquela quantidade de comportamentos que todos conhecemos, como foi demonstrado há pouco, não é mistério para ninguém.

                   Para finalizar ... Mas que ares de alívio eu vejo daqui! Depois de tanto tempo e latim gastos não ficou nada de “bem sofrer”? Como o relógio não para, me mostra que há “tempo para calar e tempo para falar”. Segurando seus ponteiros, seja para prova ou expiação, conforme o caso, concluo com as palavras de Lacordaire: “Bem-aventurados os aflitos” pode então traduzir-se assim: Bem-aventurados os que têm ocasião de provar sua fé, sua firmeza, sua perseverança e sua submissão à vontade de Deus, porque terão centuplicada a alegria que lhes falta na Terra, porque depois do labor virá o repouso”.

 

Obrigado, que a paz do Mestre permaneça com todos.

Ricardo (ou melhor, “estou” Ricardo).