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As terríveis funções do acaso

Saara Nousiainen

Extraído do livro de contos Um Forró no Umbral

 

 


  

Mariazinha, aos dez anos, era uma garotinha muito esperta e, apesar do nome, não era do tipo “Maria vai com as outras”. Devotava profundo respeito às pessoas adultas e, principalmente, àquelas que considerava sábias, tais como os professores, os cientistas e os estudiosos de um modo geral, mas ficava “matutando” em algumas coisas que diziam e, dessas conversas consigo mesma surgiam, muitas vezes, dúvidas terríveis como aquela que lhe ocupava a mente naquela tarde chuvosa de domingo.

Balançando-se na rede, Mariazinha meditava no comentário do professor sobre a tese científica que pretende ser o universo produto do acaso. Lembrava-se também do enfoque bíblico sobre a criação da terra e dos seres vivos.

Em sua cabeça infantil a imagem, antes intocável, do adulto começou a mostrar seus pés de barro. A Bíblia era tida como o livro sagrado, palavra de Deus, fonte de toda sabedoria e da verdade, mas no mundo profano a verdade era a palavra da ciência, com todo o peso de sua respeitabilidade.

Existiam ainda outras teorias, como aquela que um velho amigo da família lhe havia exposto sobre a formação dos mundos e a evolução das espécies através dos renascimentos sucessivos, ou seja, das reencarnações. Mas se todas as teorias existentes fossem postas num dos pratos da balança, juntando-se-lhes ainda a da gênese bíblica, e no outro prato as afirmações da Ciência, esta última certamente sairia ganhando, por ser a expressão visível e tangível das coisas, a pesquisa realizada em laboratório, o produto dos cálculos matemáticos e geométricos, o palpável, o irrefutável.

Remoendo essas idéias a garota adormeceu e, como se fora num passe de mágica, viu-se numa época muito anterior à pré-história, tempo perdido nos confins do tempo, num planeta chamado Hipotálus. Ali, a civilização alcançara elevadas expressões de grandeza no conhecimento científico, na tecnologia e em todas as áreas das atividades humanas. A religião existia como elemento gerador de ética na vivência dos seres, de adoração ao Soberano Senhor da Vida, mas não tinha nome.

Todos se amavam e viviam fraternalmente. Não havia dívidas externas, pacotes econômicos, corrupção, violência nem desemprego, e os políticos trabalhavam para cuidar dos interesses das nações e de seus respectivos povos. Também não existiam pobres nem ricos e todos viviam de acordo com o que produziam, mediante o próprio esforço e capacidade. Os homens e mulheres eram monógamos e nunca abandonavam suas famílias.

As artes em Hipotálus haviam atingido suas expressões mais belas e elevadas, na mostra que marcara a abertura do Congresso Mundial de Artes da cidade de Rénora, com o Hiper Painel projetado numa nuvem artificial pelo raio Ly. Nesse painel mostrava-se a criação do universo físico a partir de uma explosão cósmica ocorrida com a transformação de energia em matéria.

Sobreposto ao painel, envolvendo-o, surgia uma representação da mente divina, na forma como o pensamento humano era capaz de entendê-la. Essa representação mostrava algo dos mecanismos siderais, dava uma idéia do universo, como se fora um planetário tetradimensional, com tudo esquematizado em seus menores detalhes, as leis cósmicas comandando e presidindo a todos os movimentos siderais, aos fenômenos da vida e das transformações.

Nunca se vira algo igual em Hipotálus. O painel, última palavra em tecnologia, era dotado de movimento, cor e sonoridade. Possuía luminosidade estranha que mostrava os altos e baixos do progresso espiritual e material de todas as coisas e seres. Não faltava qualquer detalhe e todas as fases da criação e evolução surgiam aos olhos atônitos dos visitantes.

 Observá-lo, era o mesmo que remontar às raízes de tudo e acompanhar o desenvolvimento da matéria e da vida através dos reinos da natureza, abençoados pelo amor e, vivificados e gerenciados pela sabedoria do Criador.

De todas as regiões vinham caravanas e mais caravanas para o Congresso e, particularmente, para apreciar aquela magnífica obra de arte e inteligência.

Enquanto isso, na cidade de Kido realizava-se outro evento importante, o Congresso de Ciências da Evolução, reunindo os mais ilustres cientistas da época. Parece, no entanto, que o sucesso do painel gerara certos melindres, já que naquele planeta a inveja era desconhecida, e isso levou alguns cientistas, encabeçados pelo Dr. Alcott, a elaborarem uma nova tese que dizia ser o universo, obra do acaso. Já não seria Deus o seu criador. Com isso, a idéia básica do painel seria destruída, anulada.

Ao final desse Congresso, após muitos discursos e discussões, a tese do acaso como a causa primária de todas as coisas foi aceita pela maioria dos congressistas, ganhando “status” de verdade científica.

Os jornais noticiaram com grande estardalhaço e os canais de TV abriram espaço para os cientistas falarem de sua descoberta que de logo ganhou um nome, O fim da ignorância e do misticismo.

Os ânimos exaltaram-se em todas as nações de Hipotálus, as discussões ganharam as ruas e a desarmonia generalizou-se em razão do golpe mortal que o “acaso” aplicara na cabeça da Fé.

Ninguém mais se entendia, nem sabia em quem acreditar: na tradição religiosa, ou na ciência.

Alguém, mais exaltado, jogou uma bomba no equipamento que comandava o painel e este começou a funcionar ao contrário. Os cientistas alegraram-se muito e prometeram um prêmio ao terrorista da bomba que vinha, de certa forma, mostrar a “falibilidade, pobreza e absurdidade do conceito místico sobre Deus, gerada, sem dúvida, nas mentes ignorantes dos nativos temerosos dos fenômenos naturais”.

A essa altura as teses científicas de Hipotálus venciam as idéias “retrógradas” a respeito de um Criador, causa primária de tudo, inteligência soberana, perfeição, beleza, amor etc., e tal foi a força do pensamento daquela gente em torno do “acaso”, que este conseguiu dominar o quintal da casa do Dr. Alcott, no qual o Doutor, nas manhãs de sol, gostava de cuidar da terra plantando alguns pés de alface, pimentão e rabanete. Mas o Acaso (a esse turno já ganhara dimensões de maiúscula) resolveu abrir um dicionário para saber seu próprio significado e poder definir suas propriedades e funções. Ali, encontrou o seguinte: “Acaso. S.M. Conjunto de pequenas causas independentes entre si, que se prendem a leis ignoradas ou mal conhecidas e que determinam um acontecimento qualquer”.

- Puxa! Isto é muito confuso, reclamou. - Como é que eu vou trabalhar aquele quintal, se não sei o que fazer?

Enquanto isso, livre da coordenação e tutela das leis naturais que seriam geradas e mantidas pela Mente Divina, o pé de alface começou a crescer ao acaso, derivando para outras condições e estados e acabou transformando-se num gigantesco lago de água doce e salgada. O pimentão cresceu até alcançar a altura de 1.650 metros. Assustou-se com uma nuvem que passava e encolheu-se tanto que acabou do tamanho de uma laranja, mas seu peso era de 63 toneladas. Esse peso num volume tão pequeno começou a afundar e, em breve, pelo orifício formado começou a subir fumaça tão quente que modificou a temperatura da região. O pé de rabanete virou milho de pipoca e cresceu tanto que a copa alcançou a ionosfera e, ali, naquele ambiente ionizado produziu milhões de espigas, cujos grãos gigantescos caíam sobre a terra. A temperatura elevada, porém, assava os grãos, fazendo-os explodirem.

O Acaso preocupou-se. O que fazer? Haviam colocado em suas inexistentes mãos responsabilidades vitais. Correu à Biblioteca Pública, decidido a procurar nos livros alguma lei natural que pudesse frear o desencadeamento daquele terrível caos provocado por ele, mas, o primeiro livro que tocou desfez-se, pois as moléculas que formavam aquele volume dispersaram-se, quebrada a lei natural que as mantinha coesas.

Era uma situação absolutamente nova e inesperada. O Acaso, agora com responsabilidades divinas não tinha a menor idéia de como solucionar tantos e tão graves problemas. Habituara-se a marcar sua presença dentro de uma organização perfeita, regida pelas leis naturais, e agora não conseguia mais identificar-se, nem situar-se na nova posição.

Resolveu apelar para Deus. Talvez Ele pudesse ouvi-lo e recolocar as coisas em seus devidos lugares. Ajoelhou-se e tentou a prece. O pensamento, porém, ao sabor do acaso, nada dizia do que deveria dizer. Desistiu da prece para tentar outras soluções.

Enquanto isso a confusão estabelecia-se em Hipotálus e tudo transformava-se em caos, já que a ciência havia decretado a inexistência de um Ser Superior, responsável pelos mecanismos cósmicos e mantenedor das leis naturais.

 Os cientistas, muito preocupados com aquele terrível desmantelo, resolveram rever a questão e decidiram se reunir em novo Congresso, para devolverem ao Criador as suas antigas prerrogativas e funções, na esperança de que Ele os perdoasse e restabelecesse todas as coisas.

Mas o famigerado acaso, livre de leis que o pudessem controlar, resolveu agir ao seu próprio sabor. Partiu a caminhar e na primeira esquina encontrou o depósito das vaidades humanas e entrou, impregnando-se com elas. Saiu, inflado e inchado, decidido a continuar no governo de todas as ocorrências. Roçou com as pontas dos dedos as cabeças dos cientistas e seus cérebros desligaram-se do comando mental. Rapidamente os neurônios, sem esse comando, resolveram tirar férias e descansar.

A população estava apavorada. A atuação do Acaso já não se restringia ao quintal do Dr. Alcott, nem à cidade onde este residia. Vagava este pelo planeta e, por onde passava, deixava suas marcas. Os governantes então, decidiram apelar para Deus, como sempre haviam feito nos momentos de aflição. Convocaram os canais de televisão e emissoras de rádio para uma cadeia mundial de oração, mas, como os eventos em Hipotálus, a essa altura, eram todos determinados pelo Acaso, este não se fez presente para comandar os equipamentos e eles não funcionaram.

No auge da aflição o alto comando do planeta enviou mensageiros a todos os governos, ordenando a convocação geral da população para atos de fé, mas os aviões não decolaram, os automóveis não funcionaram, os faxes estavam parados e dos telefones, nem mesmo o sinal de ocupado.

Enquanto isso o elefante do jardim zoológico, desgovernado pelo Acaso, cresceu tanto que sua cabeça alcançou uma altura de 12.000 metros e a tromba deu uma volta ao planeta. Ao respirar, causava terríveis tempestades e cada passada sua gerava terremotos. Em duas horas bebeu toda a água potável de Hipotálus, secando rios, fontes e lagos.

Os mais fracos já morriam de sede, enquanto os mais fortes agonizavam.

As pipocas gigantes continuavam caindo e explodindo. O sofrimento de todos os reinos da natureza era terrível e os seres humanos oravam sem cessar, pedindo ajuda a Deus. Suas preces vibraram com tamanha intensidade nas extensões cósmicas que repercutiram na Alma Divina. O Ser Supremo, então, apiedado com tamanhos sofrimentos emitiu, através do fluido cósmico, uma ordem direcionada a Hipotálus.

No mesmo instante duas pipocas gigantes caíram numa mina de urânio, gerando uma reação em cadeia e…Hipotálus explodiu, desintegrando-se .

O Acaso, apavorado com seus atos, ficou tão traumatizado que levaria alguns bilhões de anos para se recompor.

Com a explosão, Mariazinha sentiu-se espalhada pelo espaço, distribuída ao longo da órbita daquele planeta. Tentava, mas não conseguia pensar porque, assim, espalhada, não era possível estabelecer as necessárias conexões entre os neurônios para que o pensamento se formasse.

Chorou amargamente, desesperadamente, pedindo ajuda, e percebeu que se formava uma leve corrente de emoções ao longo da órbita do ex-Hipotálus. Aos poucos, os fragmentos de idéias, sensações e sentimentos iam-se reagrupando, tomando forma e individualidade, movimentados e atraídos por uma força que identificou como sendo amor. Percebeu que essa força poderosa e inteligente era Deus, e nessa situação amargurosa sentiu-se no seio do Criador, consolada por Seu carinho e acalentada por Seu afeto.

Foi um momento inefável aquele, em que Mariazinha pôde abarcar o Infinito e perceber como todas as coisas tomavam seus devidos lugares. As pedras se encaixavam e o mosaico cósmico fulgurou diante de seu olhar embevecido. A vida parou e o tempo eternizou-se naquele instante divino em que a menina pousou a fronte sobre o firmamento e deslizou seus dedos pelos contornos cósmicos, assim como o artista a admirar a obra do Gênio.

Foi então que escutou, a vibrar em todas as galáxias, a voz do Supremo Senhor, a dizer: “Atenção, Engenheiros Siderais, responsáveis pelo planeta Hipotálus, que foi desintegrado. Reúnam-se em equipes para o planejamento e criação de um novo planeta, que será formado com os elementos dispersos do anterior. Seu nome será Terra e deverá situar-se na mesma órbita e receber os mesmos princípios espirituais que animaram a vida em Hipotálus. Liguem suas mentes à minha, para que lhes transmita todos os detalhes do novo modelo, assim como a força que deverá formá-la e sustentar-lhe a evolução…”

O restante da ordem divina Mariazinha não pôde ouvir porque estava acordando, profundamente preocupada com a insensatez de muitos “sábios” que, por orgulho, não querem admitir a existência de uma Inteligência Superior, como sendo a causa primária de todas as coisas.